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IDEIA FIXA

domingo, 29 de agosto de 2010

ELIANE CANTANHÊDE

Ideia fixa

BRASÍLIA – De Lula: “Eu acho que o empresariado aprendeu muito, o governo aprendeu muito, os sindicalistas aprenderam muito. Acho que a imprensa vai precisar aprender um pouco ainda, porque nunca vi gostar tanto de notícia ruim”.
Tradução: ele “deu um jeito” nos que poderiam incomodar. Deveria ter incluído bancos, movimentos sociais, a direita e a oposição. Botou uns no bolso e todos no seu devido lugar: o lugar de dizer amém.
Só não conseguiu ainda “ensinar” a imprensa. Mas avança nessa direção, depois de arrastar Dilma para a Presidência e os aliados em massa para os governos estaduais e para o Congresso, onde a previsão é de uma maioria como nunca antes neste país. Exceto com a Arena, na ditadura.
Os escândalos contra tudo e todos surgiram da parceria do Ministério Público, da imprensa, de funcionários exemplares (ou contrariados) e do PT, até desembocarem em CPIs. No poder, o PT tentou explodir os velhos parceiros. E as CPIs?
Já no primeiro ano, 2003, o PT lançou a Lei da Mordaça contra o MP. Depois, o Conselho de Jornalismo contra a imprensa e, por fim, o projeto contra funcionário que fala ou vaza documento. Não vingaram, mas devem estar adormecendo por trás das investidas de Lula.
Ele é um fenômeno sob vários aspectos. Tem 80% de popularidade, sua candidata caminha para comemorar uma votação histórica, e o novo governo vai assumir com a perspectiva de mais de 7% de crescimento econômico. Logo, com tudo para dar certo. Basta não errar.
Em vez de estar leve, feliz, deliciando-se diante da estrondosa vitória que se avista, Lula está armado, atiça os cães da internet e mira a imprensa, para desqualificar o último reduto do contraditório, da crítica, da investigação.
O que pretende com isso? Unanimidade? Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Em política, tende a ser perigosa. Bem não faz, e pode fazer muito mal. Inclusive subir à cabeça.
                                                                         Folha de São Paulo, 29 de agosto 2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

 

Lula inventou uma fábula

 

SÃO PAULO – Para não dizer que o presidente Lula mentiu sobre o que aconteceu no almoço de 2002 nesta Folha, em que se sentiu discriminado, digamos que ele contou uma fábula, com escasso parentesco com a realidade.
Para começar, o único presidente norte-americano que frequentou a conversa não foi Bill Clinton, jamais mencionado, ao contrário do que diz Lula, mas Abraham Lincoln. Foi Otavio Frias Filho, diretor de Redação, quem lembrou que Lincoln também não tivera educação superior, o que não impediu que fizesse um bom governo.
Depois dessa observação nada discriminatória, Otavio perguntou por que Lula não se preocupou em estudar mais, depois de ter se estabelecido na vida, como dirigente sindical primeiro e como líder partidário depois.
Lula não respondeu nada, ao contrário da fábula que conta agora. Limitou-se a dizer que se sentia desrespeitado e que, por isso, não responderia. A conversa ainda transitou por outros temas durante um tempo até que Otavio voltou a perguntar, agora sobre a ligação do PT com o fisiologismo.
De novo, Lula não respondeu, a não ser para dizer que não tinha culpa de que não estivesse bem nas pesquisas o candidato do diretor de Redação (do qual não deu o nome). Levantou-se e foi embora.
A reação do então candidato foi tão mais estranha porque, dias antes, Miriam Leitão fizera pergunta parecida e Lula dera uma resposta esperta: nenhuma universidade prepara alguém para ser presidente da República.
O que incomoda nesse episódio não é ele em si, menor. É a fabulação que o presidente faz em torno do que aconteceu. Por acaso, eu estava no almoço e sei perfeitamente o que se disse e o que não se disse. Como posso confiar em que Lula não fabula também ao relatar encontros com políticos ou governantes estrangeiros?
CLÓVIS ROSSI  crossi@uol.com.br   Folha São Paulo 26 agosto 2010.

domingo, 15 de agosto de 2010

 

 

Ruy Ohtake altera paisagem da favela de Heliópolis, em SP

 

 

 

Aos 72, Ruy Ohtake deixa o seu escritório na avenida Faria Lima, zona oeste, e, em 40 minutos sem trânsito, chega a Heliópolis, na zona sul.
Autor de prédios conhecidos do skyline paulistano, como o hotel Unique ou o instituto Tomie Ohtake, o arquiteto trabalha há sete anos na maior favela da cidade.
“Encontrei nessa comunidade uma solidariedade que não existe em outras partes da cidade”, disse.
A experiência começou em 2003, a convite de um líder comunitário.
Primeiro, o arquiteto desenvolveu um projeto de intervenção de cores. Depois, ajudou na instalação de uma pequena biblioteca.
A gestão do espaço é feita pelos moradores.
Quando a prefeitura estudava a construção de três creches no bairro, ouviu das lideranças locais: “Precisa falar com o Ruy”.
Foi assim que a intervenção do arquiteto começou a ganhar status oficial e verbas mais sólidas – e públicas.
As creches foram construídas em projeto padrão da prefeitura, mas Ohtake ajudou a posicioná-las, num terreno vizinho a duas escolas.
Nascia, aos poucos, o projeto de um polo educativo e cultural. Os sete prédios que hoje estão ali formam um conjunto sem muros, e a área verde entre eles serve como parque para a comunidade.
Composto por duas escolas, as creches, uma escola técnica e um centro cultural, o conjunto não está completo. A construção de uma biblioteca, um centro esportivo e um espaço para oficinas já foi aprovada pela prefeitura.
Formado pela FAU-USP em 1960, Ohtake tornou-se um amante das linhas curvas tanto quanto Niemeyer. Filho da artista plástica Tomie Ohtake, 96, Ruy atribui à cor muita importância.

Além de Ohtake, mais de cem entidades realizam trabalhos sociais em Heliópolis.
Outra empreitada do arquiteto é a construção de um conjunto habitacional com 71 edifícios, todos redondos. Ousado, o formato deve aumentar o espaço de circulação e eliminar noções de “frente” e “fundo” dos prédios tradicionais.
O trabalho em Heliópolis está longe de ocupar toda a agenda de Ohtake: seu escritório “comercial” continua a pleno vapor, trabalhando num aquário para o Pantanal, estruturando um plano de revitalização para a orla de Bertioga, recebendo estrangeiros para reuniões.
Nesta semana, ele tem uma tarefa especial: cinco de seus projetos -a urbanização de Heliópolis- , foram escolhidos para integrar o acervo do Centre Pompidou.
Orientado pelos curadores do museu parisiense, o arquiteto precisa separar cerca de 120 croquis para enviar à instituição. Heliópolis, em desenho, sair para o mundo.

GABRIELA LONGMAN                               Folha de São Paulo 15 de agosto 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

 

 

ENFIM, LUZ

 

RIO DE JANEIRO - Moacyr Luz tem 52 anos, nove discos solo, canções gravadas por Maria Bethânia, Nana Caymmi e Gilberto Gil, uma rica e profícua parceria com Aldir Blanc, mas ainda é um compositor pouco conhecido -ou reconhecido.
Em parte, o próprio Moacyr é responsável por isso. Assumiu, em vez da estampa do artista sério, o personagem do perfeito boêmio carioca, que conhece todos os bares, seus fregueses e petiscos, e escreve sobre eles, tornando-se uma espécie de ombudsman da botequinagem.
Assumiu por um motivo apenas: ele é de fato esta pessoa.
Aquele clichê “um carioca como não se faz mais” se torna concreto com Moacyr. Mesmo forçado a trocar o chope pelo vinho, ele continua sendo o melhor carioca que se pode conhecer. Tem humor inteligente e ilimitado, e ainda comanda duas das melhores rodas de samba da cidade.
Não por acaso, é consultor e ídolo dos bares paulistanos que se inspiram no Rio. Até lançará um livro sobre o Pirajá, no estabelecimento de Pinheiros, em 21 de agosto. O livro também tem textos de Ruy Castro e ilustrações de Jaguar.
Mas, para almejar o reconhecimento que sua obra merece, Moacyr está ganhando o empurrão de outro carioca notório. Zeca Pagodinho escolheu para faixa-título de seu próximo CD, com lançamento previsto para setembro, “Vida da Minha Vida”, um belo samba feito por Moacyr com Sereno, do Fundo de Quintal.
Ser gravado por Zeca garante a injeção de uma quantia de cinco dígitos na conta e a música tocando no rádio. Melhor ainda se, ao contrário do que aconteceu com “Deixa a Vida me Levar” -que pouca gente sabe ser de Serginho Meriti-, a gravação ajudar a fazer de Moacyr Luz, enfim, um carioca nacional. Mas, se isto não acontecer, ele continuará a ser o carioca perfeito, o que já é bastante coisa.
                              Luiz Fernando Vianna, Folha de São Paulo, 8 de agosto 2010.

sábado, 29 de maio de 2010

“Vamos fazer inveja no Serra”, diz Lula a Evo Morales.

“Serra volta a criticar Bolívia e compara governo de Evo Morales a nota de R$ 3”

 

Durante o 3º Fórum Mundial da Aliança de Civilizações, realizado no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma piada, ao lado do presidente boliviano Evo Morales, com o pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Na última quarta-feira (26), Serra afirmou que o governo da Bolívia “é cúmplice” do tráfico de cocaína para o Brasil.

“Vamos posar aqui; vamos fazer inveja no Serra“, disse Lula rindo ao colega, após a posse para a foto oficial de chefes de Estado que participam do encontro. Evo também riu, mas não fez comentários.

Já Serra, durante visita a Pernambuco, onde participou do lançamento da pré-candidatura do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) ao governo, voltou a criticar o governo boliviano sobre a falta de controle das exportações de cocaína. Segundo ele, o governo do país vizinho estaria fazendo vistas grossas sobre a comercialização da droga.

“Se Pernambuco exportasse 90% da cocaína consumida no Brasil, isso seria possível sem que o governador fizesse vistas grossas?”, questionou. “Existe um processo fabril. O governo tem que dar explicações”, reforçou.

*Com informações das agências Estado e Reuters
Do UOL Eleições*
Em São Paulo
28/05/2010 – 20h14

É a democracia, estúpidos

quinta-feira, 13 de maio de 2010

 É a democracia, estúpidos

 MADRI – A discussão em torno da autonomia absoluta do Banco Central, levantada por José Serra, é na verdade a propósito da democracia.
Democracia pressupõe que o eleitor escolha alguém (no Brasil chamado presidente da República), que tomará as decisões que julgar convenientes, entre elas o nível dos juros, o câmbio, o deficit ou superavit fiscal adequado.
Democracia não pressupõe que um funcionário subalterno tome tais decisões à revelia do presidente. É simples assim.
O raciocínio subjacente à tese de que o Banco Central pode fazer o que quiser e o presidente da República não tem que se meter é radicalmente antidemocrático.
Pressupõe que o tal de povo pode, de repente, eleger um maluco para a Presidência (maluco do ponto de vista dos mercados, aos quais o Banco Central presta a maior reverência). Para contrabalançar esse risco, é preciso ter alguém sensato (sensato do ponto de vista dos mercados) para evitar maluquices.
Levado ao limite, tal raciocínio acabará por dispensar o voto popular, transferindo a escolha de uma boa vez para os sábios do mercado -os mesmos que estão na raiz da brutal crise ainda em curso.
A primazia da política sobre os mercados apareceu ontem em artigo para “El País” de Felipe González, que pode ser acusado de muita coisa, menos de antimercado. Foi ele quem, como líder do Partido Socialista Operário Espanhol, limou o marxismo ainda existente no programa partidário.
Como presidente do governo, levou a Espanha à Comunidade Europeia, o segundo maior centro capitalista do mundo, após os EUA.
González cobrou a regulação do sistema financeiro com este argumento: “Se não os regularmos [os mercados], eles acabam por regular-nos [aos governos e à sociedade], a seu capricho especulativo e com custos insuportáveis”.
Serra já tem com quem falar.
Clóvis Rossi                     Folha de São Paulo, quinta-feira, 13 de maio de 2010
crossi@uol.com.br

quarta-feira, 21 de abril de 2010

  

 

Pelo Brasil que Tiradentes sonhou

 


O aniversário da morte de Tiradentes pode ser um bom momento para parar e pensar no Brasil que temos e naquele que sonhamos

HÁ 218 ANOS , era enforcado um dos maiores heróis da nossa história. Morto por amar o Brasil acima de tudo e por pensar no coletivo acima de tudo. Celebrar o aniversário da morte de Tiradentes pode ser um bom momento para parar e pensar no Brasil que temos, naquele que sonhamos e em como intervir para tornar o sonho realidade.
É sabido que, quando Tiradentes liderou a Inconfidência Mineira, sonhava com um país livre da exploração econômica e da corrupção.
Seu sangue foi derramado em praça pública para reafirmar o poder da metrópole, mas acabou alavancando o movimento pela independência, que viria 30 anos depois. Na verdade, estava ali semeada a república, que seria proclamada um século adiante.
Avançando no tempo, há 50 anos era fundada Brasília, cujo nascimento simbolizou um novo Brasil, rico, pujante e desenvolvido, com dimensões continentais e contrastes socioeconômicos oceânicos, que nos separam dos patamares desejáveis de dignidade e cidadania para todos.
Mas nossa capital tem sido palco de um triste espetáculo de corrupção nacional, que pela primeira vez na nossa história levou à prisão, ainda que por dois meses apenas, um governador de Estado em pleno exercício de seu mandato. O que a prisão de Arruda significou? Essa prisão tem algo a ver com a morte de Tiradentes?
A retirada do poder de Arruda sem derramar uma gota de sangue sequer e também sua prisão são sinais claros de maturidade democrática.
Elas representam um marco da nossa história, ainda mais se nos lembrarmos de que, na época de Tiradentes, o Brasil já colecionava quase 300 anos de corrupção conhecida, já que nosso patrimonialismo estratificou e conservou entre nós a cultura da corrupção, totalmente capilarizada e presente no nosso dia a dia.
Isso nos faz sentir que Tiradentes não morreu em vão e nos relembra de que, nas últimas décadas, os donos do poder começaram a ser alcançados pela Justiça.
Porém, só se tocou a ponta do iceberg da corrupção no Brasil. Há mensalões e mensalinhos investigados pelo Ministério Público nos lugares em que o Poder Executivo é exercido de forma hipertrofiada, cooptando os membros do Legislativo.
Nossa corrupção hoje está mais visível, e isso é vital para que o tema se torne mais relevante para cada um de nós. Precisamos pensar nisso individualmente, em família, na rua, com os vizinhos, no trabalho, levar para a escola, para a universidade…
Mas seria possível extingui-la?
Não! Sua extinção é um mito, como o é a extinção das desigualdades entre as pessoas. A corrupção pode e deve ser controlada, com vontade política, planejamento estratégico e envolvimento do setor privado para defender a ética na atividade empresarial.
Não por acaso, países que investem maciçamente em educação têm menos corrupção. Precisamos educar nossas próximas gerações para a cidadania, inoculando o humanismo coletivo e solidário como valores essenciais à coexistência humana, hoje marcada pelo individualismo materialista instantâneo.
A luz solar é o melhor desinfetante. No Brasil, a publicidade é princípio constitucional! Vamos radicalizá-lo, adotando a transparência total para permitir que instituições e pessoas possam controlar melhor a esfera pública. Informação é poder!
Que tal instituir a cultura da integração de informação, cruzando com inteligência informações das bases de dados de todos os órgãos de todas as esferas de poder?
Aprovemos a reforma política! Vamos banir o nepotismo e diminuir o número de cargos de confiança. Vamos punir sem medo e com efetividade os corruptos!
E aplicar com força total a Lei de Improbidade Administrativa para todos, em todos os escalões.
Vamos abolir o foro privilegiado, pois privilégio não combina com igualdade perante a lei, muito menos com a democracia. Vamos fortalecer o Ministério Público, principal instituição de defesa do patrimônio público em nosso país. Sem mordaça! Com responsabilidade.
Mostremos os dados do escândalo, e, com o mesmo destaque, o que aconteceu depois: a investigação, o processo e a punição. Vamos nos unir por um Brasil menos injusto, mais solidário e menos desigual. Além da Copa do Mundo, esse é um belo motivo para sentir dentro do peito a batida dos nossos corações brasileiros!

ROBERTO LIVIANU                   Folha de São Paulo 21 de abril de 2010

 

ROBERTO LIVIANU, 41, promotor de Justiça, doutor em direito pela USP, é diretor do Movimento do Ministério Público Democrático e autor de “Corrupção e Direito Penal -Um Diagnóstico da Corrupção no Brasil”.

quinta-feira, 25 de março de 2010

GOVERNO TÃO BONZINHO

 

Estamos vivendo em pleno “abril vermelho”. O que é isso? Muita gente sabe,principalmente dentro do governo, mas finge ignorar.
Trata-se de invasões incessantes que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, faz contra fazendas produtivas, contra empresas solidas das quais deveríamos nos orgulhar e proteger. Trata-se de um crime anunciado com antecedência e que se cumpre diante da espantosa passividade do governo e da lei. A AmBev, a Vale do Rio Doce e a Aracruz são alguns dos alvos preferidos.

Quando surgiu, o MST tinha um objetivo claro: conseguir terras para homens desvalidos diante da imensidão dos latifúndios. Terras improdutivas e abandonadas. Acontece que essas  terras não eram notícia. Acontece também que o MST passou a ser controlado por líderes loucos. Virou uma espécie de coluna maoísta, braço brasileiro da revolução chinesa, que nem mesmo na China algém se lembra mais de como era. Passou a ser um instrumento delirante para derrubar o capitalismo. Não de uma fazenda, de uma empresa, mas do próprio sistema capitalista mundial. Isso é terrivelmente ridículo, mas é pavorosamente real.

A partir de um dado momento, OMST escolhe somente fazendas produtivas, empresas sérias, parapara provocar inquietação na vida social. A pergunta que não cala é: por que o governo é tão bonzinho, tão leniente com esses caras – não com os pobres-diabos que não sabem o que estão fazendo, mas com os sujeitos que dominam os pobres? Por que não ”encanam”, não chamam o Exército, a polícia?  Porque o governo usa o MST, precisa de uma máscara de esquerda para se justificar ideologicamente diante de intelectuais ignorantes, de populistas, de caidilhos de quinta categoria, com ess4e Hugo Chavez, da Venezuela.

A esquerda é uma espécie de brinco que o governo Lula usa para enfeitar a incompetência e o ensopado de slogans que formam sua confusão ideológica. Bate uma no cravo, outra na ferradura. Quando precisa o Lula se diz liberal, apoia bancos, empresas, tudo dentro do sistema vigente. Mas posa também de revolucionário, batendo cabeça para aqueles que seriam defensores do povo no imaginário popular.

O governo deveria criar um novo MST, Ministério dos Sem-Terra, e nomear para ministro o Stédile ou o Rainha (líderes do Movimento). Seria mais fácil e mais sincero: um ministério de agitadores abençoado pela água-benta dos bispos da Pastoral da Terra
Arnaldo Jabor – Amigos Ouvintes                             17-4-2008 

 

 

 

Big Brother Brasil, um programa imbecil

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O educador Antônio Barreto, um dos maiores cordelistas da Bahia, acaba de retornar ao Brasil com os versos mais afiados que nunca depois da polêmica causada com o cordel “Caetano Veloso: um sujeito alfabetizado, deselegante e preconceituoso”.

Desta vez o alvo é o anacrônico programa BBB-10 da TV Globo.
Nesse novo cordel intitulado “Big Brother Brasil, um programa imbecil” ele não deixa pedra sobre pedra.

São 25 demolidoras septilhas (estrofes de 7 versos).

Big Brother Brasil, um programa imbecil

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal,
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar mais
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’,
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação;
Deixe de chamar de heróis
Essas “girls” e esses “boys”
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como o Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dá muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano …
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mau exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude;
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso,
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto à poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês, caros irmãos,
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações,
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo,
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil,
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor,
Que nós somos os culpados,
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados,
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

FIM

Salvador, 16 de janeiro de 2010.

sábado, 12 de dezembro de 2009

De vira-latas a megalomaníaco


Brasil, impotente no próprio quintal, quer ser potência na cúpula de Copenhague e no conflito do Oriente Médio


 

É INEGÁVEL que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi relevante para que o Brasil espantasse o complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues via incrustado n’alma do brasileiro. Pena que o seu governo tenha trocado esse complexo pela megalomania, sem nem sequer passar por algum estágio intermediário mais consentâneo com a realidade do poder brasileiro.
O mais recente exemplo de megalomania está em frase do presidente durante comício em Recife na quarta-feira: “Copenhague só vai ser o que vai ser porque o nosso querido país teve a coragem de, há um mês, apresentar as metas que apresentamos”, afirmou.
Ninguém sabe ainda o que Copenhague vai ser, mas o próprio Lula já havia descartado, apenas uma semana antes, que de lá saísse o acordo de seus sonhos.
Portanto, o que fez “o nosso querido país” não diz grande coisa. De mais a mais, qualquer pessoa que não tenha perdido completamente o senso de proporção sabe que Copenhague, saia o que sair de lá, será o produto de um equilíbrio entre os lobbies empresariais, sindicais e de ONGs, além das necessidades político-eleitorais dos líderes dos principais atores participantes, Brasil inclusive, mas não apenas nem principalmente o Brasil, ao contrário do discurso de Lula.
Qualquer pessoa que tenha mantido o sentido comum sabe igualmente que um acordo “dos sonhos” depende principalmente de Estados Unidos e China, seja qual for a posição do “nosso querido país”.

Próprio quintal
De resto, nem seria preciso o caso Copenhague para que ficassem notórios os limites da pátria. O Brasil não conseguiu resolver nem um só dos problemas que surgiram em seu próprio quintal nos últimos tempos, mas ainda assim se anima a querer resolver o problema do Irã e o do Oriente Médio.
O Brasil gritou contra o acordo Colômbia/Estados Unidos que permite o uso de bases colombianas por militares norte-americanos. Exigiu “garantias por escrito” de que as bases não seriam usadas para ações fora da Colômbia. Nem os EUA nem a Colômbia deram nem bola nem garantia por escrito.
O Brasil condenou o golpe de Estado em Honduras e exigiu a volta de Manuel Zelaya ao poder. Não conseguiu nem mesmo um salvo-conduto para que Zelaya deixasse a embaixada brasileira rumo ao México, em vez de rumo ao poder. Mas o episódio que mais recomendaria que a diplomacia brasileira evitasse cenas explícitas de megalomania é anterior.
Trata-se da crise das “papeleras”, as fábricas de celulose construídas no Uruguai, junto à fronteira com a Argentina, episódio que levou ao rompimento de relações entre o casal Néstor e Cristina Kirchner e o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez.
São vizinhos do Brasil, sócios do Mercosul, projeto prioritário da diplomacia brasileira -e nem assim o Brasil conseguiu mediar o conflito que se arrasta há anos. Qualquer pessoa de bom senso diria que é infinitamente mais fácil resolver o problema de uma “papelera” do que o conflito bíblico entre árabes e judeus. Mas megalômanos não costumam ter bom senso.

CLÓVIS ROSSI
crossi@uol.com.br        Folha de São Paulo,  12 de dezembro de 2009

 

 

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